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sábado, 25 de fevereiro de 2012

A CALIFÓRNIA


Nome dado à grande e rica fazenda de criação no sertão de Quixadá, pertencente ao Sargento-Mor Miguel Francisco de Queiroz Lima, um dos “Irmãos Queiroz”, casado com sua prima, D. Maria da Penha (Lopes Barreira) Queiroz, irmã de D. Joanna Batista de Queiroz Barreira, viúva de Luciano (ver “Bodas de Sangue”).

“Pelo ano de 1880, em pleno sertão cearense, na freguesia de Quixadá e Ribeira do Choró, florescia a Califórnia, grande fazenda de criação e fértil sítio de lavoura, com engenho de cana, aviamentos de farinha e abundantes colheitas de algodão e de cereais, provida de bom açude e servida por numerosa escravatura.
Fundada havia cinquenta anos, pelo sargento-mor Miguel Francisco de Queiroz e sua mulher Maria da Penha de Queiroz, diligentes e econômicos, a rica fazenda prospera notavelmente durante os trinta e um anos de invernos regulares, intercalados das secas de 1845 e 1877, o mais longo período de fartura observado na região.”
Esperidião de Queiroz Lima  –  Reminiscências

Nos tempos coloniais quando a FAMÍLIA representava o principal elemento de organização econômica e social, fortemente congregada para a conquista de seus haveres e defesa de seus direitos, as amizades e alianças eram consolidadas pelos casamentos, que constituíam assim verdadeiros pactos de união e de solidariedade.
Entre os filhos do Capitão Antonio Pereira de Queiroz Lima, da Fazenda Casa Forte, e os filhos do Tenente Ignácio Lopes da Silva Barreira, do Tapuiará, havia, alem do parentesco, pois eram primos carnais, muita estima e convivência, porquanto se visitavam assiduamente.
Dessa amizade resultaram três casamentos entre as famílias QUEIROZ e BARREIRA: Antonio Duarte de Queiroz Lima, Miguel Francisco de Queiroz Lima e Mariana de Jesus Queiroz Lima, casaram-se respectivamente com os irmãos Maria Ignácia Lopes Barreira, Maria da Penha Lopes Barreira e Balthazar Lopes Barreira.

Miguel Francisco de Queiroz Lima e
D. Maria da Penha (Lopes Barreira) Queiroz,
foram os fundadores da fazenda Califórnia.

A CALIFÓRNIA – o ouro
A fazenda Califórnia, durante muitas décadas foi considerada a maior e a mais importante fazenda da região, onde seus donos levavam uma vida patriarcal, assistidos por um capelão e servidos por escravaria privilegiada pelo trato magnânimo que lhe era dispensado, em retribuição ao inestimável proveito econômico advindo de seu trabalho.
Miguel Francisco e sua mulher Maria da Penha haviam se estabelecidos inicialmente no Junco, fazenda igualmente rica e produtiva, na ribeira do rio Sitiá, divisando com as águas do rio Choró, no sertão de Quixadá. Depois ele adquiriu umas terras vizinhas às suas extremas, a sesmaria pertencente a Domingos Lopes Delgado, ficando assim possuidor de enorme extensão de terras propícias para plantações e criação de gado.
O casal de fazendeiros empenhou-se com entusiasmo a fim de estabelecerem ali uma bela propriedade. E dentro em pouco estava formado um verdadeiro povoado, ao lado da capela construída em 1855.
As terras férteis produziam em tão grande abundancia algodão, cana de açúcar, mandioca e cereais, que na vizinhança só se falava na riqueza dessas terras. Um dia, um dos sobrinhos do velho Miguel Francisco, chamado José Severiano de Queiroz, o mais velho da irmandade de Santa Maria, que morava na Fazenda Barro Vermelho, depois vendida ao Coronel José Marinho Falcão (meu bisavô paterno), comentou que o tio havia descoberto uma “nova Califórnia”, mais rica que a da América do Norte que estava a produzir tanto ouro... E logo que o tio soube desses comentários, agradeceu pela lembrança da comparação e disse:

“– Eu estava mesmo procurando um nome bonito para a minha fazenda, pois fica sendo – Califórnia!”

E assim surgiu a fazenda e o novo povoado de Califórnia, sob a proteção e orago de São Francisco de Assis, padroeiro da capela.
Miguel Francisco e D. Maria da Penha não tiveram filhos. Diligentes, trabalhadores e parcimoniosos, possuíam muitos escravos que viviam como libertos, formando suas famílias que habitavam confortáveis moradias, instaladas em casas de tijolo e telha, caiadas e ladrilhadas. Bem alimentados viviam satisfeitos, trabalhando com muito gosto e total dedicação a seus senhores.
Era grande a renda e muito pouco a despesa. Os escravos produziam todos os alimentos consumidos ali e os pequenos utensílios usados nos serviços da fazenda. Ferreiros, fiandeiros e tecelões escravos produziam as ferragens necessárias, fiavam e teciam os panos de algodão que todos vestiam, inclusive as redes de dormir. Até o sal era trazido das praias de Cascavel (hoje Beberibe) onde viviam seus primos praianos, nos sítios Lucas e Bom Jardim.
Miguel Francisco não pegava em dinheiro de papel, “que era sujo”, nem de cobre, “que azinhavrava”. Era condição de toda transação ou venda que ele fazia: que o pagamento fosse feito em OURO ou PRATA, que ele recebia em moedas da época, em jóias ou em barra. E nunca se soube que o velho fazendeiro houvesse despendido qualquer parcela desses metais preciosos continuamente arrecadados.
Na falta de bancos e caixas-fortes, a maneira mais segura de se guardar toda essa riqueza acumulada em anos de trabalho e economia, seria enterrar em um local secreto. Seu cofre era a princípio uma caixa de ferro que logo foi substituída, segundo a versão corrente da época, por uma mala feita de cedro, coberta com sola e enfeitada com taxas de metal amarelo, que foi enterrada em lugar ignorado.  O segredo do esconderijo só era sabido, alem dos donos, pelo velho e fiel escravo João Miguel, que havia jurado pela salvação de sua alma guardar sigilo absoluto até a morte.
Deve existir na fazenda Califórnia, em algum lugar, uma mala velha enterrada, cheia de ouro, prata e muitas jóias, cujos proprietários levaram para o túmulo esse segredo.
Assim, se antes a Califórnia não possuía ouro no subsolo, este o recebeu depois e talvez ainda hoje o guarde em suas entranhas...

A CALIFÓRNIA – a herança
Arcelino de Queiroz Lima (avô de Arcelino Queiroz de Mattos Brito, meu avô materno), era sobrinho do velho Miguel Francisco, filho de seu irmão Pedro de Queiroz Lima e de Francisca Helena Rosa de Lima, residentes no Sítio Bom Jardim, em Cascavel (hoje município de Beberibe). Nascido em 22/01/1837, nesse Sítio Bom Jardim, formou-se em Direito pela faculdade de Recife no final de 1871 e, em 20/01/1872 casou-se com Rachel de Queiroz Lima, filha do coronel Baptista de Guaramiranga. Fundou o “Gymnásio Cearense” na Praça dos Voluntários, em Fortaleza, que funcionou em um prédio particular onde depois se estabeleceu o Liceu. Ingressou no serviço público e exerceu vários cargos por um breve tempo, pois preferiu entrar para a magistratura. Nomeado Juiz Municipal de Canindé, foi logo promovido a Juiz de Direito de Pacatuba e passou a residir numa bela propriedade, localizada no sopé da Serra da Aratanha.
Certo dia achava-se o Dr. Arcelino em seu pitoresco sítio quando ali chegou um cavaleiro trazendo-lhe um recado:

“– Eu venho da Califórnia e trago um recado do Sr. Miguel Francisco para o Dr. Arcelino.
– Que manda dizer o meu tio Miguel?
– Vou repetir as palavras dele: “Rifane, vá a Pacatuba e diga ao meu sobrinho Dr. Arcelino, que se alguma coisa lhe mereço, venha ver-me com toda urgência.” E foi só.
– Meu tio Miguel de mim merece tudo. Decerto que irei visitá-lo sem demora. Está ele doente?
– Não, senhor! Goza boa saúde, apesar dos seus oitenta e oito anos contados.”

Arcelino e Rachel ficaram conjeturando acerca desse estranho chamado do velho tio rico do sertão e, no dia 31/12/1879 Arcelino chegou à Califórnia. No dia seguinte Miguel Francisco revelou o motivo de seu chamado: ele e sua esposa queriam fazer-lhe a doação da fazenda Califórnia e constituí-lo único herdeiro de todos os bens do casal, com uma condição: deveria vir morar na fazenda, fazendo-lhes companhia e tomando a direção de todos os negócios enquanto eles vivessem. Explicou que já se sentia velho e cansado, incapaz de gerenciar suas fazendas. Não tinham filhos e também não queriam ver suas propriedades fragmentadas e repartidas entre os inúmeros herdeiros. Assim haviam escolhido o sobrinho que mais parecia merecer, capaz de proporcionar ao casal de velhos um final de vida confortável e tranquila.
Arcelino se propôs a gerenciar os negócios e fazer-lhes companhia, independente de qualquer herança. Mas o tio obstinado mandou vir de Quixadá o Tabelião José Enéas Monteiro Lessa que passou as escrituras conforme suas determinações.


Arcelino e Rachel trouxeram para a Califórnia três filhos pequenos: Adelaide (minha bisavó materna, mãe de Arcelino Queiroz de Mattos Brito), João Baptista e Pedro, com apenas um ano de idade (falecido criança, em 1888, de febre amarela, em Fortaleza). No dia 31/10/1880, nasceu na Califórnia um menino, filho do Dr. Arcelino de Queiroz Lima e de D. Rachel de Queiroz Lima, o qual se chamou Esperidião e foi batizado na Capela de São Francisco de Assis, tendo como padrinhos Miguel Francisco e D. Maria da Penha, sendo levado à Pia Batismal por sua irmã Adelaide, com apenas sete anos de idade.
Em 1882, Arcelino acabava de chegar de uma viagem à Fortaleza quando lhe informaram que Miguel Francisco não estava bem e queria vê-lo imediatamente.
Ao entrar no quarto viu que o tio passava mal, estava lívido e ofegante, sentindo uma dor forte no peito, apenas murmurou:

“– Tenho uma coisa importante a revelar-te...”

Dirigiu um olhar entre os que estavam ali presentes, fazendo com a mão um gesto para que se retirassem. Nisso levou as mãos ao peito e tombou desfalecido. Talvez um edema agudo pulmonar tenha cortado a existência de seus noventa anos já completos.
Qual seria a revelação que Miguel Francisco não pôde fazer? Todos acreditaram que fosse o segredo do local onde a mala de ouro estaria enterrada.
Enquanto era velado o corpo de seu velho tio, Arcelino passou toda a noite desse dia sentado à mesa, escrevendo: lavrou e assinou como procurador do tio, oitenta e duas cartas de alforria, libertando todos os escravos que lhe caberiam de herança, livrando-se assim do imposto de transmissão da propriedade servil que não desejava conservar. Tornou-se então, secretamente, um grande libertador de escravos. Depois disso promoveu o casamento religioso e a legitimação de todos os filhos dos ex-escravos.
D. Maria da Penha viveu mais um ano, tratada pelos sobrinhos e herdeiros com a mesma dedicação e o carinho que sempre tiveram para com a tia, e o maior escrúpulo de inquirí-la sobre o paradeiro da mala. Mas outros sobrinhos vindo visitá-la, não deixavam de interrogá-la a respeito, ao que ela lhes respondia:

“– Deus não quis que ele falasse e eu respeito a vontade daquele homem e a de Deus...”

Miguel Francisco e D. Maria da Penha foram sepultados na entrada da capela que ergueram na povoação da Califórnia.

A família da Califórnia cresceu muito. Alem de Adelaide, nascida em 05/03/1873, João Baptista, nascido em 20/07/1875 e Pedro (falecido criança), nasceram depois aí os outros filhos do casal: Mário, em 29/05/1882, Esperidião*, em 31/10/1880, Eusébio, em 19/05/1884, Daniel, em 03/02/1886, Pedro, em 08/02/1889, Beatriz, em 04/06/1892, José Arcelino, em 12/09/1893 e Arcelina, em 1º/05/1895.

O Dr. Arcelino reconstruiu a Igreja, que é o mais antigo templo da paróquia de Quixadá, e a casa onde vivera seus velhos tios, removendo todo o ladrilho e descobrindo os alicerces, na esperança talvez de encontrar o tal tesouro, mas até hoje continua o mistério da mala de ouro escondida...

A CALIFÓRNIA – o sítio
Nas terras férteis da Califórnia, a água farta tornou-se a fonte determinante de toda a prosperidade e beleza dessa fazenda fundada pelo Sargento-Mor Miguel Francisco, melhorada pelo Dr. Arcelino que se dedicou a ela com o espírito de renovação que caracterizava aquela época.Depois de abandonar a toga, ele fixou-se com a família na fazenda, onde construiu a casa-grande em forma de “H”, com 85 portas, mais distante do “arruado” de casas, onde ficava a casa velha da fazenda construída pelo tio, e mais próxima do açude. Aí nasceram quase todos os seus filhos.
Aproveitando a mão de obra operária abundante e necessitada de socorro, decorrente da terrível seca de 1888 que assolou o nordeste, o Dr. Arcelino aumentou o açude, mudou o sangradouro e trocou o antigo sifão por um cano de ferro de seis polegadas de diâmetro colocado por baixo da parede principal. Assim o açude se tornou um imenso reservatório d’água, centro vital da fazenda, e podia irrigar o magnífico sítio que ficava logo abaixo da barragem, composto de um belo pomar, enorme coqueiral e imensos canaviais.
Da extensa massa líquida, límpida e profunda que formava o “prato do açude”, partiam braços d’água que se insinuavam entre os morros, ao longo dos riachos afluentes, tomando o lago, no seu contorno, a forma de uma gigantesca mão espalmada com os dedos abertos. O jato forte de água que jorrava através do tubo posto sob a parede da barragem, caia abundante dentro de um enorme tanque de cimento, de onde partia um canal de irrigação que alimentava uma rede de levadas distribuindo essa água por toda a extensão da várzea. O tanque de registro, onde se graduava o volume de água solta, ficava abrigado dentro de uma casinha pitoresca, de forma que assim era possível manter o nível da água desejado. Tinha-se portanto, à vontade, ou o banho de ducha ou de imersão na água borbulhante, agitada em turbilhão pelo jato de alta pressão. Um banho nesse banheiro da Califórnia, especialmente no verão escaldante do sertão, era realmente um prazer inesquecível.
O peixe em abundância fornecia boa alimentação aos moradores da fazenda e também à vizinhança, durante todo o ano.

“Embora descendessem ambos de famílias sertanejas da Ribeira do Sitiá, nascera e criara-se Arcelino no sítio Bom-Jardim, nos tabuleiros de Cascavel, e Rachel era legítima serrana. Desse modo, volvendo definitivamente para o sertão, ele levou os coqueiros e as fruteiras das terras do alagadiço, e ela transportou as flores da serra, surgindo, na Califórnia, um magnífico pomar e um lindo jardim.”
Esperidião de Queiroz Lima  –  Reminiscências


Logo abaixo da parede do açude ficava o jardim, com uma bela coleção de roseiras, lindas flores e o pomar, com uma grande variedade de fruteiras tropicais, desde o açaí do Pará até a tamareira asiática. Havia ainda inúmeros pés de serigüelas, cajás, umbus, atas, graviolas, mangas, pitombas, azeitonas e de muitas outras frutas típicas do nosso nordeste.
Ao longo das margens das levadas se enfileiravam os coqueiros e, alem do pomar, a perder de vista se estendiam os canaviais.
Fora desse terreno irrigado, uma enorme plantação de cajueiros formava um verde bosque que no mês de outubro, com “as chuvas dos cajus”, se cobriam de belos frutos vermelhos e amarelos, perseguidos pelas inúmeras espécies de aves que em bandos ali se achegavam.
No verão, quando baixavam as águas do açude, iam-se descobrindo as terras marginais, úmidas e adubadas pelo lodo sedimentado, formando as ricas “vazantes”, onde se plantavam frutas e legumes de curto ciclo produzindo a fartura, extensiva a todos os moradores. Eram melões, melancias, jerimuns, milho e feijão verde em quantidade.
No inverno de chuvas regulares, a produção dos roçados era assombrosa. Junto com o milho era plantado o feijão de corda, colhido em vagens maduras pelas mulheres. Virado o milho maduro e colhidas depois as espigas secas, ficava no roçado uma enorme reserva de forragem constituída de palha de milho e rama de feijão. Esses cercados eram mantidos de porteiras fechadas e guardados para nos últimos meses de seca servirem de pasto aos animais.
Com a fartura do inverno apareciam ainda as frutinhas silvestres, para a alegria dos meninos sertanejos que se aventuravam nas várzeas em busca das melancias-da-praia, mangabas, juás e maris, que agradavam mais pela novidade que mesmo pelo paladar.

A CALIFÓRNIA – a fazenda
Nas várzeas do rio cobertas de juazeiros, e nas vastas caatingas atapetadas de "capim mimoso", pastava uma grande quantidade de gado dividida entre as fazendolas situadas no entorno da sede principal. Segundo contavam os nossos parentes mais velhos, eram dezoito fazendas ao todo.
O engenho de cana com grande produção de rapadura, açúcar e aguardente, e as fábricas de algodão e de farinha, deixavam resíduos alimentares bem aproveitados, especialmente o caroço do algodão, rico em proteína e gorduras, era distribuído como ração complementar entre os ruminantes.
Entre os produtos subsidiários da fazenda estava o sabão Califórnia”, fabricado à base de sebo animal, para uso próprio e com boa aceitação no mercado interno.
A extensa criação de animais garantia à fazenda o fornecimento da grande quantidade de carne consumida pela família e agregados mantidos à custa da casa.
A cada semana era abatida uma rês gorda, que fornecia os “lombos” assados, a “panelada”, as linguiças e a carne de sol. Além disso, ainda matava-se três vezes por semana, uma “marrã” de ovelha ou um cabrito gordo, para o preparo dos pernis, das costelas assadas na grelha, dos guisados e do sarapatel.
Sem contar com a criação miúda de terreiro – galinhas, patos, perus, gansos e capotes – de consumo quase diário.

Carnes gordas, saborosas e diversas, linguiça, chouriço (doce) e toucinho. Aves e ovos, peixe, leite, coalhada, queijo e manteiga. Cuscuz, mucunzá, pamonha e canjica (de milho verde). Beiju, tapioca, coco e castanha de caju. Batata doce, macaxeira, jerimum, maxixe e quiabo. Ata, graviola, manga, figo, melão, melancia, banana, mamão e caju. A despensa cheia de farinha, feijão, arroz, milho, açúcar e rapadura, tudo isso produzido na própria fazenda, sem passar por matadouros, feiras ou mercados. Sem se falar em preço ou conta de armazém – tal era a farta alimentação, simples, sadia e variada, usual nas prósperas fazendas sertanejas, especialmente quando servidas de grande açude e boas terras molhadas de cultura.

Era assim a Califórnia...


Dr. ARCELINO da Califórnia

Dr. Arcelino de Queiroz Lima foi o primeiro bacharel da Família QUEIROZ-BARREIRA. Interrompeu sua carreira de Juiz quando se tornou herdeiro único de seu tio rico, o velho Miguel Francisco de Queiroz Lima. Faleceu aos 58 anos na Califórnia, em 19/11/1895, deixando viúva D. Rachel, aos 43 anos, com seus dez filhos, sendo oito menores, inclusive a caçula, Arcelina, com apenas seis meses de idade.
D. Rachel "assumiu a administração de seus bens, fez seguirem para o Rio de Janeiro o filho maior João Baptista, que recomeçando os estudos matriculou-se na Faculdade de Medicina, e Esperidião*, que foi fazer os preparatórios, para o Colégio Abílio. Os outros filhos continuaram os estudos em Colégios locais, sendo mandados para o Rio à medida que iniciavam o curso secundário.
Essa resolução foi criticada por parentes e amigos  "que lhe aconselharam a criar os filhos, trabalhando na fazenda, dando-lhes, para começarem a vida, o dinheiro que teriam de gastar nos estudos.” Ao que dona Rachel respondeu dizendo que: "as fazendas divididas em dez partes e sujeitas às vicissitude das secas, não garantiriam a prosperidade futura dos filhos, que corriam assim o risco de ficar pobres e ignorantes, como frequentemente acontecia.”
Esperidião de Queiroz Lima – Antiga Família do Sertão 

D. Joanna Baptista de Queiroz Lima, casada com seu primo
João Batista Alves de Lima, eram os 
pais da Vózinha Rachel, 
  e foram eles, donos e fundadores do Sítio  Guaramiranga,
na Serra de Baturité.


Dona RACHEL da Califórnia

Vózinha RACHEL da Califórnia, em 1922 
Seus dez filhos:

- Adelaide, casou-se com seu primo Francisco de Mattos Brito, o coronel Chichio, foram donos do Sítio Guaramiranga, tiveram dezesseis filhos, mas três deles faleceram ainda criança, criaram-se treze, sendo nove mulheres e quatro homens: Cléa, Arcelino (meu avô materno), Elsa (Ir. Germana e depois Ir. Maria Luiza), Antônio (Brito), Maria Adelaide (Ir. Brito), Jorge, Alice, Áurea, Nestor, Nilda, Lúcia, Cira e Zélia;
- João Batista, médico (o Dr. Batista de Quixadá), casou-se também com uma prima, Clotilde Marinho de Góes foram pais de um único filho, Narcélio (anagrama de Arcelino), que se casou com a escritora Dinah Silveira de Queiroz;
- Mário, casou-se duas vezes, com Julieta e depois com Demitilde, teve um único filho, Renato;
- Esperidião, médico, cientista e escritor, casou-se com Maria de Jesus Marinho de Góes, Mariinha, irmã de Clotilde (ambas eram filhas de Galdioso Simão de Castro Góes e Joanna Lydia Barreira, meus bisavós paternos), tiveram cinco filhos: Rodrigo, Sílvia, Lydia, Myrta e Doris;
- Eusébio, jurista, professor e também autor de vários livros, casou-se com Emília Lacaz, não tiveram filhos;
- Daniel, jurista, casou-se com Clotilde Franklin de Lima, tiveram quatro filhos: Rachel de Queiroz, Roberto, Luciano e Maria Luiza;
- Pedro, casou-se com Maria de Lourdes Paracampos, tiveram duas filhas: Rachel e Isolina;
- Beatriz, casou-se com Homero Varela, que já tinha uma filha, Zilda, e tiveram cinco filhos: Ângelo, João, Claudio, Marcelo e Sílvio;
- José Arcelino, que ficou com a fazenda Califórnia, casou-se também com uma parenta, Abigail (filha dos primos de Cascavel), tiveram dois filhos: Rachel e João Thomás;
- Arcelina, nascida poucos meses antes da morte de seu pai, casou-se no Pará com o português Adriano Santos e tiveram cinco filhos: Armando, Pedro, Maria da Graça, Adriano e Gastão.

ADELAIDE, minha bisavó materna, e eu.
Nessa foto, da esquerda para direita, estão em pé:
Esperidião (filho do Dr. Arcelino), Lydia (filha do Esperidião),
Baptista (filho do Dr. Arcelino)Narcélio (filho de Baptista)
e Rodrigo (filho do Esperidião).
Sentadas: Clotilde (esposa do Baptista), Mariinha (esposa do Esperidião) e Sylvia, com a Myrta (de pé) entre Mariinha e Sylvia; sentada na cadeirinha, a Dóris (Sylvia, Myrta e Doris, filhas do Esperidião).



Estação de trem DANIEL de QUEIROZ


A casa velha do JUNCO,
construída por Miguel Francisco de Queiroz Lima,
tem mais de duzentos anos, toda feita de taipa,
com o madeirame de aroeira
e o envaramento amarrado com tiras de couro cru.
As colunas do alpendre são de troncos de Aroeira.

Nesse sítio, Bom Jardim, nasceu o Dr. Arcelino de Queiroz Lima


Sítio LUCAS, em Beberibe (antigamente era  município de Cascavel)

Família QUEIROZ, 1920 - Fazenda Califórnia
À direita dessa foto, sentado, está o Dr. Daniel Queiroz (pai da escritora Rachel de Queiroz), filho do Dr. Arcelino;
atrás dele, está Arcelino Queiroz de Mattos Brito (meu avô materno),
neto do Dr. Arcelino;
ao lado dele, está Rachel de Queiroz (menina), junto à vozinha Rachel;
ao centro, bem à frente, está D. Clotilde, mãe da escritora Rachel de Queiroz.
Meu avô ARCELINO e sua prima RACHEL
herdaram os nomes dos avós.

*   *   *   *   *   *   *
*Esperidião de Queiroz Lima, nascido na fazenda Califórnia em 31/10/1880, era o quarto filho do Dr. Arcelino e dona Rachel de Queiroz Lima. Formou-se em Medicina aos 23 anos de idade, pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Casou-se com Maria de Jesus Marinho de Goes (que adotou o nome de Maria de Goes Queiroz Lima), Tia Mariinha, irmã de meu avô paterno, José Marinho Falcão de Goes.

Tio Esperidião e Tia Mariinha
Médico, cientista, poeta e historiador, clinicou por longo tempo em Manaus e no Território do Acre, realizando estudos científicos que lhe valeram a nomeação como Médico do Serviço de Indústria Pastoril, do Ministério da Agricultura, no Pará, de onde foi transferido seguidamente para: Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo, Mato Grosso e Santa Catarina. Continuando suas pesquisas, comprovou através de trabalhos realizados na Estação Experimental do Instituto de Biologia Animal de Deodoro (Rio de Janeiro), em 1934, que os morcegos hematófagos são responsáveis pela transmissão da RAIVA em animais.
Depois de se aposentar como médico, no Rio de Janeiro, escreveu a história de seus antepassados, "ANTIGA FAMÍLIA DO SERTÃO" (de 1880 a 1895), publicado em 1946. Escreveu ainda "REMINISCENCIAS", onde relata fatos de sua infância e mocidade, decorridos entre o sertão e a Serra, a escola no Ceará e depois no Rio de Janeiro (de 1895 a 1903), inédito.
O texto original de "REMINISCENCIAS", de Esperidião de Queiroz Lima, era constituído de três parte:
I – de Quando Menino no Ceará, 1880-1895;
II – do Tempo de Estudante, no Rio de Janeiro, 1896-1903;
III – Onze Anos na Amazônia, 1904-1915 (que foi editado separadamente pelo INPA/CNPQ).

Títulos de alguns dos seus trabalhos:

Um Problema Pecuário do Nordeste: A Alimentação dos Gados Durante a Seca (1930)
A Transmissão da Raiva Bovina pelo Morcego Desmodus Rotundos (1933);
A Transmissão da Raiva dos Herbívoros Pelos Morcegos Hematófagos da Família Desmondotidae (1934)
Novos Rumos na Epizootiologia e na Profilaxia da Raiva dos Herbívoros (1935, obra traduzida para o espanhol e publicada no Uruguai)

Deixou inéditos alguns trabalhos de grande importância e repercussão mundial.
Faleceu no Rio de Janeiro aos 86 anos, no dia 1° de janeiro de 1967.




Tio Esperidião no Palácio do Catete,
recebendo do grande presidente Juscelino Kubitschek
Título de Inscrição no Livro do Mérito Cientifico.

*     *     *     *     *     *     *


Esperidião viveu sua infância na fazenda Califórnia, e só em 1889 veio conhecer o sítio Guaramiranga de seus avós: “na serra, a mil metros de altitude, tudo era novo para um menino nascido e criado no sertão.” Muito criança ainda, depois de enfrentar uma longa viagem a cavalo ficou deslumbrado com o “formidável contraste entre a serra, sempre verde e fresca, bela e rica, e o sertão, que se estendia a seus pés, torturado então pela seca prolongada e aniquiladora”. Viagem que ele descreveu muitos anos depois em suas “Reminiscências”.



– *“Ainda em Janeiro de 1900, depois de uma curta visita à Califórnia, fui passar uns dias no Guaramiranga, no alto da Serra de Baturité, onde fazia um clima adorável, prendendo em seus sítios serranos as famílias sertanejas, à espera que principiasse, no sertão, o inverno que já tardava.

No velho sítio de meu avô, então pertencente a meu cunhado Francisco de Mattos Brito – O Chichio – que iniciava a restauração dos exaustos cafezais pela arborização com ingazeiras, reavivei as saudades de meus anos infantis, vividos entre jardins e pomares, no encantamento de um paraíso.

A ternura de Adelaide, minha querida irmã e madrinha, completavam o delicioso agrado do ameno ambiente.

Extasiado com os esplendores da Serra e a sedutora beleza das serranas escrevi o soneto “Guaramiranga”, incluído noutro livro (“Antiga Família do Sertão”, cap. XXXIX).

“Conservo gratas lembranças desses dias de ventura.”
– “Enfim, era o Guaramiranga, o sítio encantado dos meus queridos avós, que sabia achar-se muito longe e muito alto, uma espécie de paraíso terrestre, afinal encontrado! E talvez fosse essa a principal causa do meu deslumbramento. Era, enfim, o Guaramiranga de meus sonhos!”  – “REMINISCÊNCIAS” – livro inédito de Esperidião de Queiroz Lima


GUARAMIRANGA  – Esperidião de Queiroz Lima

Embalada nas matas colossais,
Repousa a irmã querida da alvorada,
Guaramiranga, a virgem coroada
Com flores de cafés e laranjais.

Ninho de amor à sombra dos rosais,
Onde vive a serrana a ser amada,
Mais feliz, mais ditosa que uma fada
Viveria em palácios ideais.

Linda flor, perfumosa violeta,
Que a nuvem, como enorme borboleta,
Beija, sugando o néctar que ela encerra.

Uma ponta de luz do Paraíso,
Que tombando, brilhante, num sorriso,
Se engastou, para sempre, aqui na terra.



*     *     *     *     *     *     *


                                                            *     *     *     *     *     *     *



FONTE de PESQUISAS:


– LIMA, Esperidião de Queiroz – Antiga Família do Sertão – 1946
– LIMA, Esperidião de Queiroz – Reminiscências (inédito) – 2003
– SOUSA, José Bonifácio de – Quixadá & Serra do Estêvão – 1997
– RAUPP, Tereza Cristina Bessa – Lembranças da vovó: vida de tanto tempo – 2006
– QUEIROZ, Rachel de – Tantos Anos – Rachel de Queiroz e Maria Luiza de Queiroz – 1998
– QUEIROZ, Rachel de – O Não Me Deixes – 2000
– Anotações, registros pessoais, publicações na Internet, fotos dos arquivos de família.



quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Família QUEIROZ


Família QUEIROZ,
sua origem,
história e descendência
no Ceará

“Com a migração das grandes famílias rurais para as cidades, surgem em terras distantes e com nomes diversos, novas gerações, que não mais encontram, na agitação da vida moderna, nem oportunidade nem tempo de ouvir dos avós as singelas histórias de seus remotos antepassados, como eram antigamente contadas nos costumeiros serões domésticos nas fazendas; e vão assim perdendo o gosto e o interesse pelas questões de linhagens, alheando-se dos parentes, que pouco a pouco se tornam meros desconhecidos.
Em verdade, essas gerações novas não sentem mais o entranhado amor que prendia à terra as antigas famílias sertanejas, enraizadas na propriedade agrícola, que lhes garantia a estabilidade, o conforto e a independência, de que tanto se orgulhavam. Separando-se da terra, desligam-se insensivelmente dos laços de parentesco e de amizade, que prendem entre si os descendentes dos mesmos troncos ancestrais, irmanados pelo mesmo sangue e pelo culto das mesmas tradições...”
Palavras do Dr. Esperidião de Queiroz Lima,
escritas no Proêmio de seu livro
Antiga Família do Sertão - Rio de Janeiro - 1946

“Já viera dos tempos bíblicos a preocupação pelas progênies, como fez Moisés enumerando as gerações dos antigos patriarcas, e fizeram São Lucas e São Mateus registrando a ascendência de Jesus Cristo. Foi pela genealogia que os hebreus puderam ligar a origem de Cristo à de David e a deste a Abraão. A genealogia do povo escolhido desempenhava uma função de máxima relevância: cada família pretendia ver sair de sua linhagem o Messias profetizado e esta é a razão porque fora talvez aquele o primeiro povo que cuidou da conservação das suas tradições de família.”
(Cônego Florentino Barbosa – Antônio Florentino Barbosa Leite Ferreira)


As primeiras famílias que habitaram as margens do Rio Jaguaribe, no Ceará, eram de origem portuguesa.
Chegaram ao Brasil no início do século XVIII, através do porto de Recife ou de Salvador, e seguiram antigas "trilhas indígenas", ou "caminhos de gado", que cortavam o SERTÃO nordestino.


A história das famílias portuguesas:
QUEIROZ,
BARREIRA,
MATTOS BRITO,
CASTELO BRANCO,
LOPES FREIRE,
bem como suas trajetórias e descendências em território nordestino, se confunde largamente com a
História do Ceará.


Não sou historiadora nem tenho formação acadêmica específica.

Foi como pesquisadora das nossas origens, da história da nossa família e de sua contribuição para a formação desse país que procurei situar esse panorama da época da conquista das terras do "Siará Grande", nesse insólito SERTÃO cearense desbravado por nossos antepassados.


E a história diz que...
A conquista do "SERTÃO" se deu assim:

– Em 1534 chegavam à CAPITANIA de SÃO VICENTE as primeiras cabeças de GADO, procedentes das ILHAS DE CABO VERDE.
Em 1550, TOMÉ DE SOUSA mandou trazer um novo carregamento de GADO, desta vez para a CAPITANIA de SALVADOR. Da capital da Colônia o GADO foi sendo levado para PERNAMBUCO e daí para o NORDESTE, especialmente MARANHÃO e PIAUÍ.
As CAPITANIAS de PERNAMBUCO (de Duarte Coelho) e de SÃO VICENTE (de Martim Affonso de Sousa) foram as que mais se desenvolveram.
A base da ECONOMIA COLONIAL girava em torno dos ENGENHOS AÇUCAREIROS que abasteciam de AÇÚCAR o MERCADO EUROPEU. As PLANTAÇÕES de CANA DE AÇUCAR ocupavam grandes extensões de TERRAS LITORÂNEAS. Por esse motivo a PECUÁRIA se desenvolvia nas regiões mais distantes das áreas de PLANTAÇÃO.
A partir de 1680 o CEARÁ desligou-se do MARANHÃO tornando-se CAPITANIA subalterna à PERNAMBUCO. O DESENVOLVIMENTO ADMINISTRATIVO e INDEPENDENTE da CAPITANIA do CEARÁ só aconteceu no final do SÉCULO XVIII, em 1799, com sua DESAGREGAÇÃO definitiva de PERNAMBUCO.
A necessidade de POVOAR os SERTÕES fez com que os PRIMEIROS DONATÁRIOS de capitanias, chamados de “CAPITÃES-MORES”, passassem a empreender uma política de DOAÇÃO de SESMARIAS ao longo das RIBEIRAS de RIOS como o JAGUARIBE e seus afluentes, BANABUIÚ, SALGADO, RIACHO do SANGUE, QUIXERAMOBIM, SITIÁ, entre outros, a fim de situarem ali essas FAZENDAS DE GADO. As SESMARIAS eram glebas de TERRAS INEXPLORADAS, ou ABANDONADAS pelos seus primeiros donatários, DOADAS a PARTICULARES que se comprometiam a CULTIVÁ-LAS e POVOÁ-LAS. Somente em 1812 as SESMARIAS foram oficialmente EXTINTAS...

Capistrano de Abreu, em "Caminhos Antigos e Povoamento do Brasil", aborda a doação de sesmarias como fator primordial para "civilizar" e "pacificar" os índios bravios do sertão.
Ressalta a importância dessa "conquista do sertão" a partir da criação de GADO em terras que não pareciam boas para a lavoura mas se constituíam de excelentes pastos.
As condições naturais da região sertaneja tiveram um papel importante na ocupação desse território. E foi assim que desde o século XVII, o sertão tornou-se um grande pasto natural: embora a água fosse escassa, a terra era vasta e plana. A produção de carne passou a ser consumida em toda a Colônia, chegando aos centros mais distantes por meio das tropas de abastecimento. A vastidão do território e a utilização de pouca mão-de-obra para tocar essa produção, propiciaram uma cultura regional bastante diferente da litorânea, que entrou para a história conhecida como "cultura sertaneja" ou "CIVILIZAÇÃO DO COURO".

“As aldeias assistidas e protegidas por dedicados missionários puderam manter reunidos em convívio fecundo numerosíssimos índios e pô-los em contato pacífico com os colonos, seus moradores e agregados, e destarte contribuíram grandemente para a miscigenação dos elementos étnicos que se defrontavam nos sertões.”
Tomás Pompeu Sobrinho

Depois de aldeados boa parte dos índios sobreveio a consolidação da PECUÁRIA como atividade predominante em um território seco e com chuvas irregulares.
E assim, a partir do final do século XVII e durante todo o século XVIII, a conquista do sertão nordestino baseou-se numa prerrogativa:
A criação do GADO

Abriram-se os caminhos pelo SERTÃO seguindo a marcha do gado através das ribeiras dos rios, formando os principais caminhos de boiadas que povoaram as primeiras fazendas. A maior dessas rotas tinha início na foz do rio Jaguaribe e penetrava o sertão pela sua ribeira até o Cariri, onde se integrava a outros caminhos coloniais. Ao longo dessas trilhas foram surgindo os povoados que deram origem às primeiras vilas.

“Quase todos os municípios nordestinos nasceram nos pátios das fazendas de criar.”
Luiz Câmara Cascudo

De início, os donos dessas terras moravam longe, alguns viviam em seus engenhos no litoral e mantinham pouco contato com as fazendas, onde havia somente a terra, uma casa de taipa para o vaqueiro e o curral para guardar as cabeças de gado.
O vaqueiro cuidava de tudo e lhe prestava contas recebendo uma parte das crias como pagamento.

“Transportemo-nos a essas fazendas do sertão e procuremos sentir o vaqueiro no seu ambiente, ontem como hoje, ao capricho de uma vida eleita por sua coragem e por sua aventura reveladoras de um grande anseio de domínio e liberdade.”
Eugênio de Castro


Foi assim com o português ANTÔNIO DUARTE DE QUEIROZ, considerado o patriarca da família QUEIROZ no Ceará, que desembarcou no Porto de Recife em 1685, com 20 anos de idade e herdou o Engenho Jacaré, na capitania de Pernambuco, depois que se casou com sua prima Izabel. Conheceu Antônio Dias, um negociante que lhe falou do sertão do Jaguaribe e do Banabuiú, onde sobravam pastos e eram desconhecidas as doenças de gado. Animado com as notícias do comerciante de quem se tornou amigo, deu-lhe dinheiro bastante para comprar terras e rebanhos nas ribeiras do Jaguaribe e do Banabuiú. Antônio Dias comprou gado, cavalos, e outras criações, construiu casas e currais para iniciar as fazendas e povoá-las com os novos rebanhos. Sempre visitava o Engenho Jacaré para dar notícias da prosperidade dessas terras e convidar seus donos a visitá-las.

“Sem os rios condutores dos homens, sem a caatinga aberta e propiciadora de forragem e sem o índio, o problema da adaptação européia ainda estaria certamente reclamando uma solução no Nordeste.”
Tomás Pompeu Sobrinho

A intensificação da criação de gado naquelas ribeiras transformou as estreitas veredas que cortavam o sertão nordestino no que ficou conhecido como os "caminhos do gado", ou a "estrada nova das boiadas", entre outras, configurando as trilhas por onde homens e animais transitavam, em idas e vindas, padecendo todos os efeitos climáticos de secas e de enchentes.

Os currais se transformavam gradativamente em fazendas. O BOI virou moeda da época, garantindo a alimentação e estabelecendo extenso comércio entre Pernambuco e Bahia, e em troca, vinham tecidos, louças, ferramentas e outras utilidades indispensáveis para tocar a vida nas fazendas, onde não havia luxos. A mesa era farta e a alimentação se baseava exclusivamente na carne, no leite e em seus derivados. Não se comia frutas nem legumes.
A respeito dessa alimentação básica do nordestino, disse Raimundo Girão:
"O Ceará ainda é o sertão melhorado, mais civilizado, porém sertão".

A intensificação da pecuária aliada ao pequeno consumo interno de carne bovina provocou as longas marchas do gado. Os bois passaram a ser levados em boiadas compostas de cem cabeças de reses ou mais, até as feiras nos grandes centros de Recife, Feira de Santana e Salvador.

Para Capistrano de Abreu, a marcha dessas boiadas, mesmo com a consequente perda do valor do gado por conta das dificuldades e das condições climáticas enfrentadas em todo o seu trajeto, teve seu lado positivo. Os caminhos abertos no trajeto do gado em direção aos centros consumidores determinaram também a possibilidade de se entrar no sertão, de povoá-lo e de conquistá-lo.

Mas as longas marchas acabavam desgastando o gado e desvalorizando o seu preço. Os altos prejuízos financeiros dos criadores eram ainda maiores diante da concorrência desigual com os fazendeiros sediados nas proximidades dos grandes centros de comercialização. Então, a partir da primeira metade do século XVIII, os fazendeiros das áreas litorâneas passaram a comercializar o gado já abatido, iniciando aí o processo de transformação da carne fresca em CARNE SECA e salgada, conhecida também como CARNE de CHARQUE.
A origem da técnica de corte e de salga dessas carnes é motivo de controvérsias entre vários autores.

AS CHARQUEADAS
Para o desenvolvimento desse processo do charque contribuiu, sobretudo o grande rebanho da capitania aliado a outros fatores como a existência do sal, dos ventos constantes, da baixa umidade relativa do ar, e ainda, a utilização de poucos recursos para instalação das oficinas de charque.
divergências sobre a verdadeira origem da CARNE SECA feita no nordeste. Alguns dizem que esse costume vem desde a antiguidade, outros dizem que foram os índios, mas há uma versão que acredita que, sendo os portugueses os primeiros donos dessas sesmarias, e já acostumados a salgar o tradicional bacalhau, teria então sido deles a ideia de usar o sal que havia em abundancia no nosso litoral para salgar a carne produzida em excesso e assim facilitar seu comercio e exportação para as capitais das províncias.


No litoral cearense surgiram então vários TRAPICHES (armazéns), entre eles o Trapiche do Ellery, na Prainha, construído pelo inglês HENRY ELLERY, provavelmente no ano de 1844, e foi o mais famoso deles.
Henry ELLERY
Patriarca da família ELLERY no Ceará, o inglês Henry Ellery (bisavô de meu pai) nascido em Liverpool e falecido em Fortaleza em 1953, era filho do médico John Ellery e Sarah Ellery, veio para Recife ainda muito jovem, em 23/05/1835, aportando em Fortaleza em 08/02/1843.
Tão logo chegou aqui dedicou-se ao comércio e exportação de diversos produtos, inclusive à indústria de carnes secas, tendo para isso montado uma oficina (charqueada), na Rua da Palma (hoje, Major Facundo, nº 50), atualmente nº 260 a 272, localizada numa esquina, chamado "BECO DO ELLERY".
Por esse tempo o mar chegava até as proximidades da Rua da Alfândega (hoje Rua José Avelino, então nº 15). Aí ele construiu um embarcadouro que existiu por muitos anos e ficou conhecido como TRAPICHE DO ELLERY. No mesmo prédio, sobre a parte que compreendia a esquina sul-poente, instalou sua residência.


A CIVILIZAÇÃO DO COURO


As condições naturais da região sertaneja tiveram um papel importante na ocupação do território. Assim, a partir do século XVII o sertão tornou-se um grande pasto natural: embora a água fosse escassa, a terra era vasta e plana. A produção de carne e de couro abastecia toda a Colônia, chegando aos centros mais distantes por meio das tropas de abastecimento. A vastidão do território e a utilização de pouca mão-de-obra para tocar a pecuária, criaram uma cultura regional bastante diferente da litorânea.



Sobre esse ciclo da história nordestina, conhecido como "Ciclo do COURO", ou "Civilização do COURO", Capistrano de Abreu, em "Capítulos da História Colonial" (1500-1800), descreve com maestria uma sociedade sertaneja baseada na criação de gado, numa coexistência integrada, onde o COURO de boi era usado desde a estrutura da casa, nas amarrações da madeira, e ainda para fazer portas, camas, vestimentas, utensílios, alem de ser a carne bovina a principal fonte de alimento desses bravos sertanejosAssim, tudo girava em torno do BOI: carne, leite, derivados, e, sobretudo, couro e chifres.

"De couro era a porta das cabanas, o rude leito aplicado ao chão duro, e, mais tarde, a cama para os partos; de couro todas as cordas, a borracha para carregar água, o mocó ou alforje para levar comida, a mala para guardar a roupa, a mochila para milhar cavalo, a peia para prendê-lo em viagens, as bainhas de facas, as broacas aos mourões, a roupa de entrar no mato, os banguês para curtumes ou para apurar sal; para os açudes o material de aterro era levado em couros puxados por juntas de bois que calcavam a terra com seu peso; em couro pisava-se tabaco para o nariz."

Rachel de Queiroz, em seu livro o "O Não Me Deixes", menciona o uso de "relhos", tiras de couro cru retorcido, usados na amarração da madeira em antigas construções de casas de taipa:

“A casa velha do JUNCO, assim como as demais fazendas ao redor, era construída de taipa, não por pobreza, mas até por luxo. Só quem possuía boas matas podia gastar madeira de lei, em vez de tijolos, numa construção. Mais de uma vez, papai incentivado por mamãe, na sua mania de reforma de casas, encontrava uma parede de taipa velha, armada em aroeiras. Era um desperdício esconder na taipa madeira nobre, mas nos tempos em que foi feita a casa, nos começos do século XIX, a madeira era tão abundante que se podia desperdiçá-la. É a frase mais comum do caboclo: “Nunca tive amor a pé de pau.”
Outra coisa comum e singular na velha casa do Junco é que as varas, que formavam o trançado da taipa, eram atadas às forquilhas com tiras de couro cru. Quando se derrubava algum pedaço de parede, descobria-se o relho perfeitamente conservado dentro do barro.
E hoje, apesar de algumas modificações nas paredes internas, a estrutura externa mantem-se a mesma, tal como a construiu o velho Miguel – esqueleto de aroeira, recheio de barro traçado sem cimento, apenas com um pouco de cal.”


Casa Velha do JUNCO - Quixadá - Ceará
A casa velha do JUNCO, construída por Miguel Francisco de Queiroz Lima,
tem mais de duzentos anos, toda feita de taipa, com o madeirame de aroeira
e o envaramento amarrado com tiras de couro cru.
As colunas do alpendre são de troncos de Aroeira.

José Bonifácio de Sousa faz interessante referência, em seu livro intitulado "Quixadá & Serra do Estêvão", à cidade de Quixadá e à família QUEIROZ:

"Quixadá nasceu de uma aventura. Uma casa de taipa e um curral de caiçara à beira de um rio seco, centrando duas léguas de caatinga compradas "pelo preço e quantia certa de duzentos e cincoenta mil reis". Foi quanto custou ao capitão José de Barros Ferreira, em 1747, todo o chão quixadaense.
A essas benfeitorias primitivas veio juntar-se depois uma capela, erguida pela crença e pelas esperanças daquele pioneiro, exposto a toda sorte de perigos, naqueles ermos pervagados pelo tapuio traiçoeiro.
Estava assim formado o triangulo rural peculiar da região: casa, curral e capela, como expressões da família, da economia e da religião.
A crônica dessa terra é, a bem dizer, o resumo da história de todo o vasto sertão em que se acha encravada. Não há, talvez, um outro município no Ceará que melhor caracterize a formação da sociedade rural, desde a fase inicial da ocupação até o atual estágio de desenvolvimento.
Foram os "Lemos" e os "Queirozes" as famílias que predominaram na formação da gens quixadaense.
Vindas por caminhos diferentes, fixaram-se quase ao mesmo tempo, na segunda metade da era de setecentos, às margens do Sitiá eixo de colonização da zona – entregando-se à exploração da terra pelo pastoreio e depois também pela lavoura.
Não obstante a identidade e interesses, não chegaram a se entrelaçar, tendo cada uma dessas famílias construído o seu destino à parte, de acordo com as tendências de índole e de formação. Todavia, não se constituíram em grupos antagônicos e hostis, como os que encheram de tumulto a história social de outras regiões."


“Os fatores sucintamente descritos documentam o modus faciendi do nascimento de uma cidade sertaneja do ciclo do gado. A fazenda que se situa, os vizinhos que se reúnem, a riqueza que aumenta, a capela que surge, a igreja que substitui e, enfim, a matriz em torno da qual a vila formada ali se transforma em cidade. Preside a todas essas fases o espírito cristão. É a sombra da cruz que, povoa e civiliza o deserto.”
Gustavo Barroso


OS QUEIROZES:

"Das margens do Jaguaribe e do Banabuiú, onde a princípio se estabeleceram, vindos de Pernambuco, passaram ao baixo e médio Sitiá e aí se afazendaram. Foram os sesmeiros iniciais das terras adjacentes à serra Azul e seus domínios abraçaram, pouco a pouco, as ribeiras do Pirangi e Choró.
Em toda essa região situaram fazendas, povoaram-nas de gente e de gado e, mais tarde, na época do fastígio econômico do grupo, suas propriedades se estendiam pelos tabuleiros de Cascavel e Beberibe e pelas frescas rechãs da Serra de Baturité, onde um deles iniciou o cultivo do CAFÉ.
De índole irrequieta e dominadora, não era gente para viver segregada nos seus feudos rurais, indiferentes ao meio e sem ingerência na vida coletiva. Deram exemplo disso os dois Antônio Pereira de Queiroz, pai e filho, que repartiam o tempo e a fadiga entre as lides bravas do pastoreio e os encargos públicos que exerceram na região.  O mais moço, morador na fazenda Natividade, ao sopé da serra Azul, não se cansava de percorrer, em cada quinzena, trinta e seis léguas a cavalo, em plena seca de 1790, para cumprir os deveres não remunerados de juiz ordinário da Vila de Campo Maior de Quixeramobim.
Fiéis a esse traço característico, tiveram os QUEIROZES participação ativa nos movimentos literários que agitaram a Província nos Primórdios da Independência. Na expedição organizada contra Fidié, no Maranhão, lá estavam Antônio Francisco de Queiroz Barreira, Miguel de Queiroz Lima e outros. E na Revolução de 1824, foi talvez o grupo que maior confiança inspirou ao malogrado presidente Tristão Gonçalves, e soube honrá-la a preço de ingentes sacrifícios.
Havia, como em todo rebanho numeroso, ovelhas negras, e entre estas se incluía Antônio Cirilo de Queiroz, cujas façanhas lhe deram triste celebridade. Inculto porem inteligente, deixou curioso manuscrito, com que se fez o primeiro cronista da família, tendo aludido nele aos seus desvairamentos, penitenciados no fim da existência atribulada e na hora da morte.
O juiz leigo Antônio Duarte de Queiroz celebrizou-se pelo “assassínio judiciário” de Estácio José da Gama. Foi, entretanto, o primeiro fazendeiro quixadaense a libertar seus escravos, muito antes da emancipação total na Província, gesto altruístico imitado por seu irmão Miguel Francisco de Queiroz e outros membros da grei.
Sem tendências para o misticismo religioso, nem por isso deixou a família de produzir um santo sacerdote, na pessoa de monsenhor José Cândido Queiroz, austero e modesto vigário sertanejo a cujas virtudes e sabedorias costumava aconselhar-se o arcebispo Dom Manuel Silva Gomes.
Queiroz da gema foi também o general José Clarindo, primeiro presidente constitucional do Ceará-republicano, em cujo período administrativo tantos eram os que declaravam seus parentes, que uma burleta da época generalizou – “todos nós somos Queiroz...”.
Dos seus entrelaçamentos com os BARREIRAS, os Limas, os Ferreiras, os MARINHOS, os Holandas e outras famílias da região, resultaram subgrupos que conservam as características da velha cepa, aprimoradas nos Facós, gente obstinada no talento, no caráter e nas opiniões.
No magistério e no cultivo do Direito brilharam, a seu tempo, Arcelino de Queiroz Lima, José Baltazar Ferreira Facó, Pedro de Queiroz e Eusébio de Queiroz Lima, para citar apenas os mortos.
No domínio da poesia e da erudição, Edgar e Eurico Facó tiveram renome nacional. Na vida política do Ceará projetou-se o citado general José Clarindo de Queiroz, militar de notável prestígio, e no âmbito municipal, o Dr. João Batista de Queiroz; José Jucá, um dos maiores servidores de Quixadá, e os irmãos Francisco e IGNÁCIO ALVES BARREIRA NANAN.
Deixaram estas e outras figuras representativas ilustres descendência entre filhos e netos, os quais hoje ocupam lugar de destaque nas letras, nas cátedras, no jornalismo, nas profissões liberais e nos cargos públicos.
Há, todavia, os mais modestos e mais numerosos, que permaneceram fiéis à exploração da terra, continuando a tradição duas vezes secular."
(José Bonifácio de Sousa – Quixadá & Serra do Estêvão)

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‘Cada homem carrega a história
de todos que o precederam.
E faz, por sua vez, em certa medida,
a história de todos que o seguirão.
Nenhum de nós começa do princípio...
Nascemos no meio da nossa própria história!’
Padre Daniel Lima

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O português
MANOEL PEREIRA DE QUEIROZ
foi o primeiro QUEIROZ a pisar em terras brasileiras:


– Em 1630, chega ao porto de Recife, o português Manoel Pereira de Queiroz, nascido em Viana do Castelo em 1610. Com os recursos que havia trazido, estabeleceu-se no comércio de tecidos e ferragens vendidas aos donos de engenho em troca de açúcar. Passados dez anos de dura peleja sob o domínio holandês, Manoel Pereira de Queiroz juntou suas economias e resolveu dedicar-se à agricultura. Conseguiu uma sesmaria de terra, de uma légua de frente por cinco léguas de fundos, situada à margem esquerda do rio Goiana Grande, distante uma légua da feira de Goiana na Capitania de Pernambuco, onde construiu com muito trabalho e esforço o Engenho Jacaré. Somente depois de bem estabelecido, aos 59 de idade, sentindo-se velho e sozinho, resolveu casar em 1669, com dona Ângela Cavalcante Vasconcelos, filha do português Felippe de Brito Pereira da Rocha e Joaquina Cavalcante de Vasconcelos. Dois anos depois, em 1671, nasceu sua única filha Izabel Cavalcante de Queiroz.

Numa bela tarde de junho de 1685, chega ao Engenho Jacaré, Antônio Duarte de Queiroz, rapaz jovem de 20 anos, português de pele clara e rosada, bem vestido, a procura do seu tio Manoel Pereira de Queiroz. Era filho do seu irmão mais novo chamado Manoel de Queiroz e Silva, que vivia em Vila do Amarante, casado dona Jerônyma Pinto Nogueira.
Antônio veio à procura do tio que embarcara para o Brasil e já havia muitos anos não tinham notícias suas. Depois do encontro emocionado dos dois sentimentais patrícios, conheceu a prima Izabel, encantadora nos seus quatorze anos de idade, cheia de dengues de filha única e vaidosa de ser herdeira rica e bajulada. Apaixonou-se por ela e decidiu que iria trabalhar com afinco para conseguir conquistar a confiança do tio e o coração de Izabel. Tanto fez que, dois anos após a sua chegada, em 1687, em meio a grande festejo e satisfação dos sogros, foi realizado o casamento comemorado até nas senzalas. Ele com vinte e dois anos e ela com a beleza graciosa dos seus dezesseis anos de idade.
Três anos depois do casamento, morreu subitamente o tio Manoel, aos oitenta anos de idade, e no ano seguinte faleceu dona Ângela, deixando para Antonio Duarte de Queiroz e dona Izabel Cavalcante Vasconcelos de Queiroz, muito jovens ainda, uma boa e sólida fortuna.
O casal teve três filhos:
Francisca (nascida em 1692), Bertholeza (nascida em 1694) e Antônio (nascido em 1698), crianças louras, bem alvas e cheias de saúde, que enchiam de alegria a casa do Engenho Jacaré.

Num certo dia, Antônio Duarte de Queiroz conheceu um negociante que lhe falou do sertão do Jaguaribe e Banabuiú com muito entusiasmo, onde sobravam pastos e eram desconhecidas as doenças de gado.
O Ceará vivia o seu apogeu do "Ciclo do Couro", exportando a famosa carne de sol para vários estados, desde o norte do país até o Rio Grande do Sul, daí passou a ser conhecida como “carne do sul”.
Animado com as notícias do comerciante Antonio Dias de quem se tornara amigo, o jovem proprietário do engenho Jacaré deu-lhe dinheiro bastante para comprar terras e rebanhos de criação no sertão do Ceará. Antonio Dias comprou uma légua de terra à margem direita do Jaguaribe no lugar denominado Boa Vista, e outra meia légua de terras à margem direita do rio Banabuiú, com uma légua de fundos, no lugar chamado Barro Vermelho, e formou assim duas boas propriedades, distantes três léguas uma da outra. Comprou gado, cavalos, e outras criações, construiu casas e currais para iniciar as fazendas e povoá-las com os novos rebanhos. Sempre visitava o Engenho Jacaré para dar notícias da prosperidade das fazendas e convidar seus donos a visitá-las.

No início do ano de 1700, Antonio Duarte de Queiroz resolveu conhecer suas terras e partiu do Engenho Jacaré para o sertão de Jaguaribe, em companhia do amigo Antônio Dias e da família:
Francisca com oito anos de iadade, Bertholeza com seis e Antônio com quatro anos.
Dona Izabel foi conduzida em uma liteira carregada por escravos. Prosseguiram uma longa e penosa viagem pela Paraíba, Rio Grande do Norte, Piranhas e Mossoró, atravessando a serra da Borborema e a chapada do Apodi. Chegaram ao Jaguaribe e se acomodaram na fazenda Boa Vista.
Mal refeitos da aventurosa viagem e já se acostumando com as lidas sertanejas, diante da prosperidade dos rebanhos e da abundância própria do sertão nordestino nos tempos de bons invernos, foram surpreendidos pela morte repentina do amigo Antônio Dias vítima da temida febre amarela. Dona Izabel aflita, lamentou-se por terem se aventurado para terras tão distantes, sem  nenhum conforto, longe dos parentes e sem meios de comunicação. Contam que ela queixou-se maldizendo a hora que veio pra esse lugar, e com desolação teria dito:

- “Deus permita que eu não tenha filhos nessa terra, pois não vejo quem possa ser seus padrinhos caso me veja obrigada a batizá-los”.

Os vizinhos mais próximos eram da família Brito, pardos ignorantes e perversos. Tomaram como ofensa pessoal as palavras de dona Izabel, e por isso guardaram por ela um profundo rancor.
Só haviam se passado três meses do dia em que partiram do Engenho Jacaré, e aconteceu em seguida uma verdadeira tragédia: adoeceram e morreram, talvez da mesma febre, Antônio Duarte e dona Izabel, deixando órfãos em terra estranha, os três filhos pequenos, abandonados que ficaram sem nenhum amigo que pudesse protegê-los.
Essa tal família Brito que odiava dona Izabel, com o apoio da justiça tomou conta das crianças e tornaram-se seus tutores, vendendo em praça pública a fazenda Boa Vista, gados e escravos, e apossando-se ainda de todos os bens deixados pelo casal. Para as crianças deixaram apenas as terras da fazenda Barro Vermelho, algumas cabeças de gado, um escravo para o menino e uma escrava para cada menina. Mas o pior foi o suplício e as humilhações que sofreram essas pobres crianças, alem dos maus tratos físicos que padeceram durante dez anos.
Antônio Duarte de Queiroz e sua mulher dona Izabel foram sepultados ao pé de uma velha cruz de madeira que havia em sua fazenda Boa Vista onde residiram por tão pouco tempo.
Após o falecimento do casal a fazenda foi vendida ao português João Batista Pereira de Castro, que mandou construir uma capela sobre as sepulturas de seus patrícios com a invocação de São João Batista.
Em janeiro de 1710, o menino mais novo, Antônio Duarte de Queiroz Filho que já tinha quatorze anos, não suportando mais os castigos a que eram submetidos, resolveu fugir em procura dos parentes de sua mãe que ficaram em Pernambuco. Saiu às escondidas acompanhado do escravo, e seguiram a cavalo pelo mesmo caminho percorrido com sua família na viagemque fizeram, vindo do Engenho Jacaré. Antônio já atravessava a Serra da Borborema quando adoeceu e faleceu vítima também de febre amarela. A notícia deixou suas irmãs ainda mais infelizes e desamparadas.
Em abril deste mesmo ano de 1710, no porto de Recife chegaram três jovens rapazes portugueses, sobrinhos de Antônio Duarte de Queiroz, bem trajados, de pele clara e traços finos, e logo se dirigiram a um armazém de açúcar na rua principal do porto, endereço que lhes havia chegado na última carta recebida pela família em Portugal com notícias dos herdeiros do Engenho Jacaré. O proprietário do estabelecimento,  um negociante amigo de seu tio, contou-lhes o que sabia do triste acontecimento mas desconhecia o paradeiro das três crianças, e assim eles logo resolveram partir para o Jaguaribe em busca do paradeiro de seus primos.
Antonio Duarte de Queiroz quando veio para o Brasil em 1685, havia deixado em Portugal três irmãos mais novos.
Os três rapazes que aqui chegaram em abril de 1710, eram: Ignácio Pereira de Queiroz Lima, Joaquim Pinto de Queiroz e Victoriano Nogueira de Queiroz, filhos respectivamente desses três irmãos que se casaram e viviam em Viana do Castelo.
Os três rapazes, orientados pelo comerciante, tomaram um veleiro de carga que seguia para São José do Porto dos Barcos (Santa Cruz do Aracati, depois conhecida como Aracati), situada na foz do rio Jaguaribe, ao sul da capitania do Ceará. Fizeram uma longa viagem e finalmente chegaram a São Bernardo do Jaguaribe, já em princípios de maio. Procuraram a casa do vigário, Padre João da Costa que lhes relatou com detalhes toda a triste história dos seus parentes, falou das duas irmãs que restaram, Francisca e Bertholeza – “duas mocinhas brancas e bonitas”.
Entre os rapazes e o velho missionário, teria sido feito um acordo:

“– Aceitar-nos-iam elas como maridos?
 – Ora! Se aceitam! Para as pobrezinhas isso será um presente do céu! Assim ficará tudo muito bem e serão todos muito felizes, com a graça de Deus.
– Elas escolherão dentre nós os seus maridos, declarou Ignácio.
–  Não parece conveniente essa solução. Iria colocá-las no embaraço da escolha e causar-lhes o desgosto de ter de refugar um dos primos. Penso que deviam decidir antes, quais os que desejam casar, e irem vê-las só os dois pretendentes.
Todos os rapazes concordaram com esse alvitre.
– Proponho uma solução, disse o padre: o mais velho casará com Francisca e o segundo em idade casará com Bertholeza.
E assim concordaram e estabeleceram. No dia seguinte Ignácio Pereira de Queiroz Lima e Victoriano Nogueira de Queiroz seguiram para São João do Jaguaribe, levando uma carta do venerando padre João da Costa para o tutor de suas primas.”

Chegando à fazenda dos Brito, os rapazes se apresentaram com a carta de recomendação feita pelo padre e logo conheceram as duas primas. Moças bonitas, alvas, louras e de olhos azuis, tímidas e confusas, tomadas de emoção e sobressalto pela aquela visita inusitada. Depois de conversarem reservadamente por um bom tempo, falaram de suas intenções e as moças aceitaram com muito gosto as propostas. Eles então se dirigiram ao velho Brito e formalizaram os pedidos de casamento sendo logo marcado a data da cerimônia. Os noivos se despediram com a promessa de voltarem no dia marcado para o casamento.

Ignácio  e Victoriano casaram-se com Francisca e Bertholeza conforme haviam prometido, numa cerimônia simples mas tocante, na capelinha de São João Batista. O velho missionário padre João da Costa celebrou uma missa depois de abençoar os dois casais de noivos que se ajoelharam ante as sepulturas de seus pais: Antônio Duarte e Izabel, testemunhas silenciosas daquela hora tão divinamente abençoada em que suas queridas filhas foram redimidas do martírio em que viviam.
Após o casamento os dois casais foram morar em suas terras da fazenda Barro Vermelho, às margens do rio Banabuiú.
O outro primo Joaquim Pinto de Queiroz, seguiu para o Rio Grande do Norte, estabeleceu-se em Serrinha e tornou-se fazendeiro, casou-se com uma moça da família Fernandes, do Açu, donde veio a família QUEIROZ do Rio Grande do Norte.

Ignácio Pereira de Queiroz Lima e Francisca Cavalcante Vasconcelos de Queiroz viveram felizes na Fazenda Barro Vermelho, aonde chegaram a reunir boa fortuna em gado e escravos. Ignácio  era comodista, homem de letras, bem instruído encarregou-se da educação dos filhos o que fez com muito esmero, transmitindo-lhes com habilidade e esmero, conhecimentos raros para aquela época. Dona Francisca, inteligente e determinada, era verdadeiramente a alma da fazenda, agia sempre em nome do marido a quem atribuía todas as decisões. Mas tanto ela como sua irmã nunca esqueceram os maus tratos sofridos sob o jugo daquela família de perversos, e por isso demonstravam abertamente o desprezo que nutriam à “Justiça” e sempre conservaram consigo o ódio aos mulatos.

Ignácio e Francisca tiveram dez filhos:

F1 - Antônio Pereira de Queiroz, c.c. Helena de Oliveira Maciel
F2 - José Pereira Cavalcante de Queiroz, c.c. Francisca da Rocha Maciel
F3- Anna Pereira Cavalcante de Queiroz, c.c. Simão Corrêa de Araújo
F4- Fellipe Pereira Cavalcante de Queiroz mudou-se para a cidade de Açu, no Rio Grande do Norte, onde se casou na família Albuquerque, teve várias filhas mulheres e apenas dois filhos homens, um destes, José Felippe de Albuquerque, que se mudou para o Rio de Janeiro onde se formou em Direito e lá deixou descendência
F5- Joaquim Pereira de Queiroz, c.c. uma moça de Canindé e foi o progenitor da família Queiro da Água Verde.
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F9- Luíza Pereira de Queiroz, que acompanhou seu irmão Joaquim, casou-se em Canindé com o português João de Andrade, de onde vieram as famílias Sales e Andrade de Uruburetama
F10- João Pereira de Queiroz foi para o Riacho do Sangue, onde se casou com Maria Alves Pinheiro e foi estabelecer-se no Riacho Cangati, afluente do rio Choro, onde prosperou e deixou ilustre prole
F11- Francisco Pereira de Queiroz, casou-se na Bahia, com uma viúva jovem ainda, e foram morar em Santo Amaro, constituindo assim o ramo baiano da família Queiroz.
F12- Manoel Pereira de Queiroz, nomeado Alferes do exército Português, casou-se com uma filha do Comandante da Fortaleza Goa, José Mattoso Câmara, e foi avô do Senador do Império Eusébio de Queiroz Coutinho Mattoso Câmara, nascido em São Paulo de Loanda, na África, em 27/09/1812, e foi ainda o progenitor da ilustre família da antiga província do Rio de Janeiro estabelecida em Quissaman.


Os três primeiros filhos de Ignácio Pereira de Queiroz Lima e dona Francisca Cavalcante Vasconcelos de Queiroz, casaram-se respectivamente com três filhos do capitão Joaquim Correia e dona Anastácia Maciel de Mello, proprietários da fazenda Papagaio na várzea do Apodi, Rio Grande do Norte:

Antônio Pereira de Queiroz (neto), o primeiro filho de Ignácio, recebeu o mesmo nome do avô materno, herdeiro do Engenho Jacaré, casou-se com Helena de Oliveira Maciel. E depois mais outros dois irmãos de Antônio, José Pereira Cavalcante de Queiroz e Anna Pereira Cavalcante de Queiroz, casaram-se com Francisca da Rocha Maciel e Simão Corrêa de Araújo Maciel, irmãos de Helena.
Depois desses três casamentos, Antônio, José e Simão foram nomeados respectivamente, Capitão, Tenente e Alferes de Cavalaria do Regimento de São Bernardo do Jaguaribe.

Outros dois filhos de Ignácio e dona Francisca, Francisco Pereira de Queiroz e Manoel Pereira de Queiroz, enquanto jovens, muito trabalho e desgosto deram a seus pais. Francisco, o nono filho do casal, talvez por seu próprio caráter ou de tanto ouvir sua mãe falar das injustiças que padeceu com seus irmãos, tornou-se um exímio atirador, e muito hábil no manejo da espada, fez-se cavaleiro andante e juntamente com seu irmão Manoel ficaram célebres por suas estripulias. Meteram-se a justiceiros, atacaram escoltas para tomar os presos detidos, libertaram criminosos, e assim arranjavam briga por onde passavam, ferindo e matando algumas pessoas, tornando-se verdadeiros egressos da lei. Procurados pela justiça do Estado fugiram para Bahia onde foram presos, remetidos para Lisboa e trancafiados na prisão de Limoeiro.
Essa triste notícia chegou à Fazenda Barro Vermelho e causou tamanho constrangimento e desgosto a seus pais, que não resistindo faleceu Ignácio Pereira de Queiroz, seguido por dona Helena apenas treze dias depois. Os dois foram sepultados na capela de São João Batista, a mesma em que há muitos anos atrás haviam se casado, e onde se achavam as sepulturas de seus pais Antônio Duarte e Izabel, e ainda as sepulturas de Victoriano e Bertholeza, que os precederam na morte.
Os dois filhos que permaneciam encarcerados na prisão de Limoeiro sem nenhuma esperança de salvamento, foram convocados pelo rei de Portugal para as conquistas de terras na África, com a promessa de que, caso se portassem com bravura seriam considerados livres.
Esses dois destemidos brasileiros tanto se destacaram nas lutas contra os negros africanos que em pouco tempo foram nomeados Alferes do Exército Português. A coragem e a bravura de Manoel Pereira de Queiroz, conquistaram o amor da filha do comandante da Fortaleza de Goa, José Mattoso Câmara. Manoel se casou e lá permaneceu. Foi ele o avô de Senador do Império Eusébio de Queiroz Coutinho Mattoso Câmara, nascido em São Paulo de Loanda, na África, em 27/09/1812, e foi o progenitor de ilustre família da antiga província do Rio de Janeiro estabelecida em Quissamam. Seu irmão Francisco Pereira de Queiroz pediu a exclusão do exército e voltou para a Bahia, onde se casou com uma viúva jovem e rica indo morar em Santo Amaro, formando então o ramo baiano da família Queiroz.
Depois da morte de Ignácio Pereira de Queiroz e de dona Francisca, da fazenda Barro Vermelho, seus filhos com suas famílias constituídas dividiram-se por diversos lugares da capitania do Ceará.

O filho mais velho, Antônio Pereira de Queiroz casado com Helena de Oliveira Maciel, requereu duas “datas” de terras na Serra Azul, em Quixadá, com três léguas quadradas cada uma e formou o sítio Natividade”, para onde se mudou com a mulher e dois filhos pequenos. Nesse lugar onde até então era povoado por índios bravios, iniciou extensas plantações de milho, mandioca e algodão. Construiu muitas casas de moradia, casas de farinha, paióis para armazenar o milho e fábrica de descaroçar algodão.
Antônio Pereira e dona Helena residiram durante doze anos no sítio “Natividade”, onde nasceram mais seis filhos do casal, completando oito ao todo:

1 – Antônio Pereira de Queiroz Lima, c.c. Leandra Lopes Barreira
2 – Anna Pereira de Jesus, c.c. Sebastião da Cunha Saraiva
3 – Joana Batista de Queiroz c.c. Ignácio Lopes Barreira (filho de Antônia da Silva e Sá Barbosa, bisneta da índia Piaba, e do português Balthazar Lopes Barreira)
4 – Maria de Jesus Queiroz (freira da Ordem Terceira de São Francisco em Recife)
5 – ...
6 – Miguel José de Queiroz Lima, c.c. Vicência Clara da Silva
7 – José de Queiroz Lima
8 – Izabel de Queiroz Lima c.c. José Lopes Barreira



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 "Quod potui feci;
faciant meliora potents".

"Quanto a mim escrevo até este ponto;
o que depois se passou,
talvez outro queira tratá-lo".
Xenofonte, "Helênicas"




Nota da autora:

Esse trabalho é o resultado de uma intensa pesquisa pessoal. Há anos venho me dedicando a escrever longos textos sobre origens, histórias, ascendências e descendências dessas famílias das quais eu descendo.
Consegui elaborar esses parcos escritos, cuja única intenção é resgatar e registrar a genealogia de nossos antepassados, desde suas origens até os dias atuais. Aos poucos vou compondo nossa parte nessa história, uma espécie de “colcha de retalhos”, juntando cada pedacinho a outros, através de uma constante busca, de uma investigação laboriosa entre relação de dados e acontecimentos, realizada com esmero e profunda dedicação.
São dias, às vezes noites inteiras, passados diante de um computador, de pilhas de livros, cadernos de anotações, antigos documentos e uma infinidade de outras fontes de informação, lendo, pesquisando, digitando, corrigindo, deletando, refazendo e acrescentando nomes, datas e textos. Tentando decifrar todas as complexas relações de parentesco entre nossos ancestrais, reunindo e conferindo nomes, datas e lugares de nascimentos, casamentos, fotos e falecimentos.
Dizem que as publicações sobre genealogia de família são sempre “ensaios” e nunca ficam prontos, porque estão continuamente carecendo de ajustes, emendas e correções.
De minha parte, admito desde já existirem algumas omissões e eventuais erros nesses assentamentos, inerentes ao meu intento, sujeitos, portanto a retificações, emendas e acréscimos, que serão sempre muito bem recebidos.

Dedico,
à memória de meu pai, um contador de histórias de quem herdei o gosto pela genealogia dos nossos ancestrais, através das narrativas que ele sempre me fazia, muitas vezes recontadas com riquezas de detalhes, legando a mim todo o seu precioso acervo de livros, fotos, registros e outros documentos com informações relacionadas a família;
aos meus filhos e netos, para que um dia eles também possam contar essas histórias aos filhos e netos deles...
ao meu irmão Arcelino Neto que me proporcionou, entre outras coisas, resgatar e reescrever todas essas histórias...

Claudia Maria Mattos Brito de Goes


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FONTE de PESQUISAS:

– LIMA, Esperidião de Queiroz – Antiga Família do Sertão – 1946
– LEAL, Vinicius Barros – História de Baturité – 1981
– LEAL, Vinicius Barros – A Colonização Portuguesa no Ceará – 1983
– SOUSA, José Bonifácio – Quixadá & Serra do Estêvão – 1997
– GIRÃO, Raimundo – Famílias de Fortaleza (Apontamentos Genealógicos) 1975
– GIRÃO, Raimundo – Montes, Machados e Girões - 1967
– GIRÃO, Raimundo – Pequena História do Ceará - Instituto do Ceará – 1962
– ABREU, Capistrano de – Caminhos Antigos e Povoamento do Brasil
– ABREU, Capistrano de - Capítulos da História Colonial (1500-1800) – 1934 (pág. 128)
– RIBEIRO, Valdir Uchoa – Genealogia da Família Brreira
– BARREIRA, Inácio Ellery – Origem da Família Barreira - Livreto - 1986
– BRÍGIDO, João – Ceará (Homens e Factos) – 1919
– TORCÁPIO, Raimundo – Rev. Do Instituto do Ceará – Algumas Linhagens de Famílias do Sul do Ceará (Revista Trimestral)
– Anotações, registros pessoais, publicações na Internet, fotos dos arquivos de família.

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